Manifesto

2026

Janeiro de 2026 ficará marcado na memória de Leiria como o mês em que o tempo parou. A tempestade Kristin não foi apenas um fenómeno meteorológico; foi um golpe profundo na nossa geografia afetiva. Durante semanas, o silêncio da cidade só era interrompido pelo som das serras elétricas e das águas que galgaram as margens. Sem luz, sem comunicações, fomos todos confrontados com o limite.

Ficar em casa não foi uma opção. Para muitos, a casa foi o ponto de partida para a urgência: foi preciso sair para ajudar o vizinho, para erguer muros, para limpar a lama e para reparar o que o vento tentou levar. A vida aconteceu na superação, no esforço de quem não pôde simplesmente recolher-se. Tudo isto exigiu de nós que olhássemos para a ideia de "casa" com outros olhos.

Por isso, este ano, o festival A Porta explora o conceito de Khana, uma palavra de raízes antigas que significa literalmente «casa», «morada» ou «lugar de pertença». Mais do que um teto físico, Khana representa o nosso refúgio interior e o espaço de segurança onde nos podemos voltar a erguer. É uma escolha deliberada de habitar a intimidade da antiga Pousada da Juventude para redescobrir o que significa, hoje, ter um abrigo, assumindo em simultâneo a extrema fragilidade desse mesmo conceito. Num ano em que tantos viram os seus telhados voar e a ilusão da permanência desabar, escolhemos as paredes sólidas do centro da cidade não como um esconderijo, mas como um espaço de reconstrução.

"O que o Vento não Levou" é o nosso lema e a nossa prova de vida. O vento levou árvores e alterou paisagens, mas não levou a resiliência de uma comunidade que sabe que, para caminhar lá fora, precisa primeiro de entender o seu centro. O vento soprou forte, mas a nossa Porta continua aberta, e agora, mais do que nunca, sabemos que o conceito de casa é algo que carregamos connosco, mesmo quando somos forçados a sair para o mundo. O que ficou de pé é o que realmente importa.